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Vestígios, desaparecimentos, 2014 //  [scroll down for english version]
por Marcelo Bressanin
[Texto sobre a mostra Uma reflexão sobre ciclos irregulares, 2014 / site specific / Prédio do Incinerador - Praça Victor Civita, SP.]


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Alberto Caeiro nos diz que “na cidade, as grandes casas fecham a vista a chave, escondem o horizonte, (...) e tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver”.

Essa ideia ajuda a perceber que, com crescimento de São Paulo, nossa memória empobreceu: circuitos, edificações, monumentos, sons, práticas, gestos e outros elementos da paisagem urbana e da experiência de seus habitantes desapareceram. Se perderam da lembrança coletiva como a residência familiar que, no século dezoito, ocupava o final da atual Rua Sumidouro.
Em alguns casos, as reconfigurações da cidade deram origem à verdadeiros ground zeros de memória: espaços onde o desgaste simbólico reduziu o passado a cinzas.
A abordagem da arte sobre esses pontos cegos pode estimular nossa perpepção para tais processos. Por exemplo, a escultura “Spiral jetty”, do artista norte-americano Robert Smithson, tensiona a salinificação de um lago dado seu isolamento das fontes de água corrente após a construção de um ramal ferroviário.
O acúmulo de rochas utilizado por Smithson na obra e o aumento da salinidade da água, em virtude da interferência social sobre o meio, convivem metaforicamente.Tais considerações nos permitem abordar a obra “Uma reflexão sobre ciclos irregulares”, de Victor Leguy, de forma bastante particular. 
Concebido para o espaço do antigo incinerador Pinheiros, o trabalho expõe a história enclausurada no subsolo do local. A existência de elementos tóxicos resultantes da incineração do lixo tornou a área imprópria para o convívio social, apenas retomado com a iniciativa de revitalização que originou a Praça Victor Civita.
Os bolsões de cinza ali soterrados, hoje isolados do contato dos visitantes, emergem da obra como elementos de recontaminação: ao adentrar no ambiente negro de cinzas, tomamos contato com as queimas - concretas ou simbólicas - que operamos no cotidiano, os pequenos gestos que insistimos em ignorar e as memórias que preferimos não ler.
Com isso, a obra de Victor lembra a cidade de Argia, que surge no romance de Ítalo Calvino, “As cidades invisíveis”. Argia, descreve Calvino, é uma cidade onde a terra substitui o ar, onde “as ruas estão completamente preenchidas com terra, a argila preenche os cômodos até o teto”.
Mas, alerta o autor, se nós, na superfície sobre Argia, encostarmos os ouvidos no solo, podemos ouvir, lá embaixo, os ruídos de portas batendo.

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Traces, disappearances, 2014
by Marcelo Bressanin
[text for the exhibition - A reflection on irregular cycles, 2014 / site specific / Incinerator Building - Victor Civita Square, SP.]

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Alberto Caeiro tells us that "in the city, the great houses Close the View by key, hide the horizon, (...) and make us poor because the only wealth is to see."

This idea helps to realize that with growth of São Paulo, our memory impoverished Circuits, buildings, monuments, sounds, practices, gestures and other elements of the urban landscape and the experience of its inhabitants disappeared. Lost the collective memory as the family residence in the eighteenth century, occupied the end of the current Sink Street.
In some cases, the city reconfigurations led to the true ground zero memory: spaces where the symbolic wear reduced the past to ashes.
The approach of the art in these blind spots can stimulate our perpepção for such processes. For example, the sculpture "Spiral Jetty" by American artist Robert Smithson, tensions the salinification a lake as its isolation from current water sources after the construction of a rail spur.
The accumulation of rocks used by Smithson in the work and the increased salinity of the water, because of interference on the social environment, living metaphorically. These considerations allow us to address the work "A reflection on irregular cycles," Victor Leguy of very particular way.
Designed for the space of the old incinerator Pinheiros, the work presents the story enclosed underground on site. The existence of toxic elements resulting from waste incineration has the improper area to socialize, just taken to the revitalization initiative that originated the Victor Civita Square.
The big gray pockets buried there, now isolated from the contact of visitors emerge from the work as recontamination elements: on entering the black ashy room, we take contact with the burnings - concrete or symbolic - that operate in daily life, the small gestures we insist to ignore and the memories we prefer not to read.
Thus, the work of Victor reminds the city of Argia, which appears on the Italo Calvino’s novel, "Invisible Cities". Argia, describes Calvin, is a city where land replaces the air, where "the streets are completely filled with earth, clay fills the rooms to the ceiling."
But, the author warns, if we, on the surface on Argia, pull over ears on the ground, we can hear, downstairs, port knocking noises.
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